sábado, 18 de junho de 2011

NOVELA: BETO ROCKFELLER (1968/69)

Beto Rockfeller é uma telenovela brasileira, produzida pela TV Tupi e exibida de 4 de novembro de 1968 a 30 de novembro de 1969, às 20 horas. Foi uma criação de Cassiano Gabus Mendes, escrita por Bráulio Pedroso e com direção de Lima Duarte e Walter Avancini.

TRAMA

Beto Rockfeller é um charmoso representante da classe média-baixa que morava com os pais e a irmã no bairro de Pinheiros, em São Paulo, trabalhava como vendedor de sapatos e tem uma namorada no subúrbio chamada Cida. Fazendo-se passar por milionário, consegue penetrar na alta sociedade, namora uma moça rica (Lu) e se apaixona por outra moça (Renata), grã-fina decadente, que conhece sua real situação. Para se safar das confusões, conta com a ajuda dos amigos fiéis Vitório e Saldanha.


BETO ROCKFELLER

Em 60 anos de telenovelas diárias no Brasil, Beto Rockfeller, exibida pela Tupi em 1968, é a que mais marcou a produção brasileira. A Tupi, em crise, queria uma novela de baixo custo. A melhor maneira de baratear seria evitar vestuários e cenários de época para usar roupas comuns e incluir locações e externas.

Essas mudanças exigiram inovações no texto. O autor Bráulio Pedroso recorreu ao cotidiano urbano brasileiro, usou um tom coloquial nos diálogos, deu espaço para os improvisos dos atores e centrou o foco num anti-herói: um mero funcionário de uma loja de calçados que se infiltra na alta sociedade. Tudo isso fez Beto Rockfeller virar mania nacional.

O protagonista, vivido por Luiz Gustavo, passava longe do galã convencional. Esperto e cheio de ginga, abusava do charme para se passar por milionário e manter as duas namoradas: a humilde Cida, vivida por Ana Rosa, e a ricaça Lu, interpretada por Débora Duarte. "Naquele momento, era uma ousadia um personagem como este", define o ator Luiz Gustavo.


O tom leve e brincalhão era realmente bem diferente das novelas produzidas na época - em geral adaptações de títulos de países latino-americanos ou folhetins romanescos. "Tudo o que se fazia até então era pautado pelo melodrama. Por isso, Beto Rockfeller foi um divisor de águas", avalia Mauro Alencar, autor do livro A Hollywood Brasileira - Panorama da Telenovela no Brasil.

Entre os profissionais envolvidos na produção, a maioria concorda ao afirmar que, na época, não tinha consciência da revolução que o trabalho representava. "É difícil analisar um processo enquanto está sendo vivido", sintetiza Ana Rosa. À distância, no entanto, as justificativas para o fenômeno são as mais diversas. "Estávamos no auge da ditadura, era a hora de quebrar barreiras. A obrigatoriedade do herói bonzinho era uma imposição que caiu por terra", destaca Marília Pêra, que interpretou Manuela na trama. "A representação era naturalista, levada pelo próprio texto, mais coloquial. E o elenco contribuía", opina Walderez de Barros, intérprete de Mercedes.

O elenco é destacado também por Lima Duarte, diretor da novela. "Era muito fácil trabalhar com aquele elenco. Colocava o estúdio todo em função deles", garante. De fato, boa parte do texto era fruto da criação dos atores, o que favorecia a inclusão de menções a personalidades e fatos do dia-a-dia de São Paulo. Este bate-bola com a realidade fez com que a novela ganhasse as páginas dos jornais. "Fomos parar nas colunas sociais e políticas, íamos presos a cada duas semanas por causa da censura, fomos capa da Veja logo depois da estréia", enumera Luiz Gustavo.
O improviso tomava conta da produção em todos os níveis. Às vezes, o segundo bloco da trama entrava no ar e o terceiro ainda estava sendo gravado, nas imediações da TV Tupi, onde eram realizadas as externas. "Recebíamos o capítulo às 9 horas, gravávamos até as 18 horas, para entrar no ar às 19 horas. Às vezes atrasava mesmo", diverte-se Lima.
Para "economizar tempo", o próprio diretor dava vida a personagens que apareciam "de repente" na trama, por obra do autor ou dos próprios atores. Foi assim que ele "virou" Seu Domingos, o dono da oficina mecânica onde trabalhava Vitório, interpretado por Plínio Marcos. O personagem não existia no texto, mas começou a ser citado a toda hora por Plínio e Luiz, até que ganhou uma "cara". "Na verdade, só aparecia de costas, numa sombra ou em off. Era um personagem misterioso", lembra Lima, aos risos.

O sucesso foi tanto que a novela acabou esticada em vários meses, provocando uma verdadeira "deserção" na equipe. Bráulio foi substituído por uma trinca de autores, liderados por Eloy Araújo, Walter Avancini entrou no lugar de Lima e o próprio Luiz Gustavo se ausentou algumas semanas das gravações. "A emissora não queria terminar a novela de jeito nenhum. Chegou uma hora em que peguei minhas coisas e fui embora. Só voltei para gravar os dois últimos capítulos", revela o protagonista, que reencontrou o personagem na novela A Volta de Beto Rockfeller, também da Tupi, em 1973, e no filme Beto Rockfeller, dirigido por Olivier Perroy.

Reduto da inspiração

Era para ser só mais uma noite na boate Dobrão, local da moda em São Paulo no final dos anos 60, do qual Cassiano Gabus Mendes era um dos sócios. Mas o então diretor artístico da Tupi e Luiz Gustavo passaram horas entretidos com um sujeito simpático e "boa-pinta", que roubava as atenções da mesa onde se comemorava o aniversário de uma jovem da alta sociedade.

Ele chegou, entregou flores à aniversariante, arrancou gargalhadas do grupo, tirou a garota para dançar e pediu que tocassem um tango. Os dois deram um show na pista de dança, foram aplaudidos e saíram juntos da boate. Curioso, Luiz se aproximou da mesa e perguntou quem era o convidado. Ninguém conhecia. Tampouco ele havia sido convidado para a festa. O ator se lembra até hoje do comentário de Cassiano. "Este cara é um personagem. Deve ser um 'pé-rapado', que deu um show numa festa da sociedade", recorda Luiz.
Naquela noite, os dois já saíram dali com o nome do personagem definido - Beto, apelido bem brasileiro, e Rockfeller, sobrenome de uma das maiores fortunas internacionais da época. O próximo passo foi entregar a idéia nas mãos de Bráulio Pedroso. Quem se lembra da visita ao autor é Lima Duarte, que acompanhou Cassiano. "Ele ouviu a idéia e comentou: 'Interessante, ele nasceu na Teodoro Sampaio e quer fazer vida na Rua Augusta...'", lembra o ator. A comparação usava célebres redutos da classe média baixa e da classe alta paulistanas, separados por poucos quarteirões.
Da inspiração inicial ao que foi para o ar, o processo continuou pautado pelo improviso, pelo tom de brincadeira e pelas constantes "reuniões criativas" dos profissionais envolvidos. "A gente acabava de gravar e ia para a casa do Bráulio bolar as coisas", destaca Luiz.
A boate Dobrão, por sua vez, teve papel relevante em mais uma das inovações de Beto Rockfeller: a inclusão da música popular, nacional e internacional, na trilha sonora das novelas. Cassiano entregou a Lima uma série de discos da boate, muitos deles ainda não vendidos no Brasil. E o orientou a escolher ali os temas musicais de cada personagem. O diretor até hoje se lembra das cenas em que Renata, vivida por Bete Mendes, aparecia ao som de "F... Comme Femme". "Dava um close na Bete, que estava lindíssima, soltava a música e não precisava de mais nada", derrama-se Lima.
Mauro Alencar aponta justamente estas cenas como precursoras de outra tendência lançada por Beto Rockfeller. "As cenas da Bete com 'F... Comme Femme' eram nitidamente clipes. Foi a primeira novela que usou as cenas de pensamento dos personagens com música ao fundo", destaca.
Instantâneas * O autor Bráulio Pedroso confessou, em entrevista a Mauro Alencar, que nunca tinha assistido a nenhuma novela até ser convidado para escrever Beto Rockfeller. "Talvez por isso ele tenha conseguido criar algo tão fora dos padrões da tevê da época, inspirado em seu trabalho no teatro", avalia Mauro.

* Os altos índices de audiência de Beto Rockfeller detonaram na Globo um processo de reavaliação que culminou na demissão de Glória Magadan. Mas foi justamente na Tupi, já em decadência, que ela escreveu sua última novela no Brasil: E Nós Aonde Vamos?", de 1970.

* Luiz Gustavo lembra que Plínio Marcos costumava escrever nas pernas, durante os intervalos das gravações, trechos da peça Quando as Máquinas Param, lançada em 1971.
* Mais de 20 anos depois de Beto Rockfeller, Bete Mendes viveu a mãe da personagem de Renata Castro Barbosa em Tieta. E ouviu emocionada da mãe da atriz que o nome foi inspirado em sua personagem na novela.

* Ana Rosa quase pediu rescisão do contrato com a Tupi antes de ser convencida por Cassiano Gabus Mendes a viver Cida. A atriz chegou a negociar com a Excelsior a participação em Sangue do Meu Sangue. "Estava desgostosa, queria dar novos rumos à carreira. Ganhava mal e, depois de duas protagonistas, estava pegando papéis menores. Nesta fase da vida, a gente acha que sabe das coisas. Imagina se eu tivesse saído!...", reconhece a atriz.

* O papel do mecânico Vitório, vivido por Plínio Marcos, seria inicialmente de Juca de Oliveira. Mas o ator desistiu na última hora.

* O clima de brincadeira nos bastidores da Tupi se refletia na tela. Tanto que os autores Bráulio Pedroso e Geraldo Vietri promoveram um encontro entre Lu, vivida por Débora Duarte em Beto Rockfeller, e Heloísa, personagem de Aracy Balabanian em Antônio Maria, exibidas uma após a outra. As duas se encontraram na casa da cartomante vivida por Etty Fraser, onde tentavam descobrir o destino de seus respectivos romances com os personagens-título das tramas.

* Além do misterioso Domingos, dono da oficina, Lima Duarte viveu ainda em Beto Rockfeller um assistente da personagem de Etty Fraser. Neste caso, não pela falta de um ator, mas pela carência do cenário. O diretor pediu uma mesa onde pudesse apoiar a travessa com os pedaços de frango que a personagem vivia "beliscando". Na falta do móvel, não titubeou. "Então me traga um casaco preto que eu mesmo fico aqui segurando", lembra Lima. O personagem acabou ganhando várias falas em russo e o abuso de palavrões ininteligíveis gerou protestos da comunidade russa no Brasil.

* Ana Rosa se lembra admirada do escândalo que foi uma cena de sexo entre a sua personagem e o de Luiz Gustavo. "A censura caiu em cima, mas foi tudo sutilmente dirigido. Tinha beijo, abraço, a câmara descia para os pés e só mostrava o vestido dela caindo", recorda. * Luiz Gustavo chegou a repetir 33 vezes num único capítulo o nome do medicamento Engov. Tudo porque a marca lhe ofereceu Cr$ 3 mil por cada menção. "Meu salário era de Cr$ 900 e eu nem recebia. Acabei inventando o merchandising. Quando a emissora percebeu, já tinha passado o bonde", justifica, orgulhoso.


ELENCO

ElencoLuiz Gustavo .... Beto Rockfeller
Débora Duarte .... Lu
Bete Mendes .... Renata
Ana Rosa .... Cida
Irene Ravache .... Neide
Plínio Marcos .... Vitório
Marília Pêra .... Manuela
Walter Forster .... Otávio
Maria Della Costa .... Maitê
Jofre Soares .... Pedro
Eleonor Bruno .... Rosa
Rodrigo Santhiago .... Carlucho
Theo De Faria .... Lavinho
Ruy Rezende .... Saldanha
Walderez de Barros .... Mercedes
Pepita Rodrigues .... Bárbara
Etty Fraser .... madame Waleska
Zezé Motta .... Zezé
Lima Duarte
Othon Bastos
Jayme Barcellos
Marilda Pedroso
Gésio Amadeu
Martha Overbeck
João Carlos "Midnight" - Vadeco (cafajeste)
Francisco Trentini .... Canuto


CURIOSIDADES

Foi uma inovação na televisão brasileira, ao abandonar a linha de atitudes dramáticas e artificiais de interpretar das telenovelas de então e adotar o tom coloquial dos diálogos, utilizando gírias e expressões do cotidiano, dando ao público fantasia com gosto de realidade. As notícias dos jornais e as fofocas da época eram comentadas pelos personagens.

Outra inovação foi a trilha sonora, que deixou de trazer temas sinfônicos tocados por orquestras e utilizou sucessos pop da época.

Com o sucesso, a emissora espichou a telenovela e o autor Bráulio Pedroso, estafado, abandonou a obra provisoriamente, sendo substituído por três autores liderados por Eloy Araújo.

O protagonista Luiz Gustavo atingiu o auge de sua popularidade e se consagrou como grande ator da televisão brasileira.

O diretor Lima Duarte representou pelo menos uns cinco papéis de personagens que desapareciam da trama sem que seus rostos fossem conhecidos.

Foi a primeira novela a usar o merchandising, ainda que não em caráter oficial. Era do medicamento Engov, pois o personagem bebia muito uísque e Luiz Gustavo faturava cada vez que engolia o comprimido em cena.

Foi a primeira novela a utilizar tomadas aéreas.

Em 1973, Braúlio Pedroso escreveu uma continuação da telenovela (A Volta de Beto Rockfeller) com parte do elenco original, mas não conseguiu a repercussão esperada.

Hoje não existem mais os capítulos da telenovela, pois a TV Tupi os apagava para gravar por cima os capítulos seguintes. O pouco que sobrou de suas filmagens está guardado na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

Foi a primeira novela do grande ator Othon Bastos que vinha de grandes sucessos do cinema como O Pagador de Promessas, Tocaia no Asfalto, e o clássico Deus e o diabo na terra do sol.

 
 
fonte:exclusivo terra,wikipédia

2 comentários:

  1. tantas novela. que ja forão reprisada porque não volta a passa esse classico dos anos 60. seria sem duvuda uma grande audiencia.

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  2. Foi a melhor novela da TV Brasileira, além de marco na dramaturgia novelesca da TV. Enfim, um marco divisor de águas da televisão brasileira.

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