domingo, 18 de março de 2012

NOVELA: O ESPIGÃO (1974)

O ESPIGÃO

Autoria: Dias Gomes
Direção: Régis Cardoso
Supervisão: Daniel Filho
Período de exibição: 01/04/1974 – 01/11/1974
Horário: 22h
Nº de capítulos: 112

Trama/ Personagens:

- O conflito entre um empresário com delírios de grandeza e os excêntricos moradores de uma mansão no Rio de Janeiro move a trama principal dessa novela escrita por Dias Gomes, a primeira a discutir o avanço acelerado e predatório da expansão imobiliária sobre o meio-ambiente, e a desvalorização das relações humanas em um mundo cada vez mais comprometido com o progresso teconológico. A novela usava uma linguagem coloquial, seguindo a linha que o autor já adotara em Bandeira 2 (1972), e um forte tom de humor.

- Lauro Fontana (Milton Moraes) teve uma infância dura, vivida em orfanatos e reformatórios. Para sobreviver, ganhou a vida trabalhando como engraxate, jornaleiro, camelô, bicheiro e leão-de-chácara de motéis. Neste último emprego, conseguiu dar o golpe do baú em Cordélia (Suely Franco), a filha fútil e temperamental do seu patrão. Após a morte do sogro, ele assumiu o comando dos negócios, multiplicou seu patrimônio e se tornou um dos empresários mais bem-sucedidos do ramo hoteleiro. Ele compensa todas as frustrações acumuladas no passado miserável com empreendimentos megalomaníacos marcados pelo seu fascínio desmedido pela tecnologia.

- O projeto mais ambicioso de Lauro Fontana é o Fontana Sky, um monumental edifício de 50 andares planejado para ser o hotel mais moderno do mundo. O “espigão”, como foi apelidado, teria teatros e cinemas nos andares inferiores, uma piscina em cada andar e rampas de acesso exclusivas para os apartamentos. A magnitude da obra é tamanha que o empresário calcula que “pelo menos cem operários devem morrer durante sua execução”. Para que seu sonho se torne realidade, entretanto, Fontana precisa primeiro tomar posse do local, considerado ideal para a construção do edifício: uma área arborizada de mais de cinco mil metros quadrados no bairro de Botafogo. Porém, o terreno em questão abriga a mansão dos irmãos Camará, que estão dispostos a conservarem intacta a propriedade atendendo ao último desejo do falecido pai, o velho advogado Martiniano Pedreira Camará. A casa e a área verde ao seu redor foram tudo o que restou da antiga fortuna do advogado.

- Filhos de Martiniano com quatro mulheres diferentes, os quatro irmãos Camará são figuras cheias de neuroses e idiossincrasias. Somente com o consentimento de todos eles o terreno pode ser vendido. Urânia (Wanda Lacerda), a filha mais velha, é uma viúva que nunca sai do casarão e, regularmente, reúne os irmãos ao redor de um coqueiro plantado pelo pai, num ritual para cultivar sua memória. Fiel à vontade do pai, que lhe aparece em visões, ela se recusa a vender a casa. Também contra a venda da casa, mas por razões diferentes, está Baltazar, o Tatá (Ary Fontoura). Botânico renomado, ele deseja evitar a devastação que a construção do espigão fatalmente provocaria em mais uma área verde da cidade. É também desajeitado e sexualmente reprimido, e compensa a dificuldade de se relacionar com as mulheres colecionando mechas dos seus cabelos. Igualmente reprimida é a virgem quarentona Tina (Suzana Vieira), que costuma sair pelo bairro e flertar com estranhos, mas tem ataques de pânico quando eles se aproximam. Ela também não quer deixar a casa, porque isso a obrigaria a ir morar em um apartamento, onde não teria como criar os 25 cães vira-latas que recolheu das ruas. Apenas Marcito (Carlos Eduardo Dolabella), o caçula, é a favor da venda do casarão. Espécie de Don Juan moderno, ele sonha em gastar sua parte do dinheiro com as várias mulheres que namora ao mesmo tempo. O rapaz só consegue se satisfazer sexualmente, porém, quando ouve o som de sinos badalando.

- O primeiro capítulo reuniu vários personagens em um gigantesco engarrafamento de trânsito, na noite de réveillon, desenhando assim algumas das tramas paralelas da novela. Neste contexto, nasce o romance entre Dora (Débora Duarte) e Léo (Cláudio Marzo). Ela é uma moça humilde, recém-chegada ao Rio, recém-viúva, grávida e sem muitas perspectivas na vida. Ele acaba de chegar do Maranhão para tentar ganhar a vida. Quando Dora entra em trabalho de parto dentro de um táxi, no túnel Rebouças, Léo desce do ônibus e a ajuda a dar à luz. A partir daí, os dois passam a ser solidários um com o outro. Dedicado defensor da natureza, Léo também se torna um dos que vão se opor à construção do espigão em Botafogo.

- Cordélia Fontana é outra personagem que presencia o parto de Dora. Estéril, mas obcecada com a idéia de ser mãe, ela pressiona Lauro a adotar a criança. Porém, mesmo com todas as dificuldades, Dora resiste ao assédio do empresário e consegue criar sozinha o filho. Mais tarde, Lauro e Cordélia decidem recorrer à inseminação artificial, a grande novidade da medicina na época.

- No engarrafamento, Lauro Fontana conhece ainda Lazinha Chave-de-Cadeia (Betty Faria), que se torna a sua amante. Assim como o empresário, Lazinha sobreviveu a uma infância miserável. Ela sofreu violência física do pai e fugiu de casa. Cresceu trabalhando em bares no Beco da Fome, onde se tornou líder de uma quadrilha de assaltantes, da qual fazem parte seu braço-direito, o bandido intelectual Nonô Alegria-das-Gringas (Milton Gonçalves), e o sentimental Dico (Ruy Mendes). Eles estão em fuga, após terem assaltado uma joalheria, quando se vêem presos no engarrafamento.

- Todas as artimanhas vis de Lauro Fontana acabam por vencer a resistência dos irmãos Camará no final da novela. Eles ficam enfraquecidos depois que Urânia morre, atingida na cabeça por um coco, e decidem vender o terreno e a mansão. Na cena final, enquanto manifestantes de movimentos pró-ecologia são mantidos afastados por policiais, o empresário assiste impassível à demolição do casarão e à limpeza do terreno onde, em breve, começaria a ser erguido o espigão.

Produção:

- Sobrevivente de um passado cheio de privações, Lauro Fontana tinha obsessão pelos confortos proporcionadas pela tecnologia. Para tornar real a atmosfera de sofisticação tecnológica que cercava o personagem, a TV Globo importou dos Estados Unidos vários objetos considerados ícones da modernidade do momento, que foram incorporados aos cenários da sua casa e do seu escritório. Entre eles, um super-relógio digital de mesa, que permitia ao empresário saber as horas em vários países do mundo; um aparelho que servia ao mesmo tempo como rádio, abridor de cartas e apontador de lápis; uma escova de dentes elétrica com um dispositivo que permitia a adaptação de um pente para secar os cabelos; e dois pares de óculos muito peculiares: um, para ser usado em saunas, com pequenos pára-brisas nas lentes; e outro, para ser usado no escuro, com dois mini-holofotes.

- A produção também construiu um elevador de acrílico e alumínio no qual Fontana chegava ao seu dormitório

- Para reproduzir em cena os requintes tecnológicos descritos no texto de Dias Gomes, foram elaborados alguns “efeitos especiais” bastante rudimentares, mas que produziam ótimos resultados. Nas cenas em que Lauro Fontana atravessa o corredor de acesso ao seu escritório, por intermédio de uma esteira rolante, por exemplo, o ator Milton Moraes ficava em pé sobre um carrinho, que era puxado por um contra-regra. Em outras cenas, Cordélia, mulher do empresário, tentava relaxar em uma cama que trepidava quando ela acionava um determinado dispositivo. Para se conseguir esse efeito, a cama cenográfica fora construída sobre pneus, que eram sacudidos pelos contra-regras.

Curiosidades:

- O apelido “espigão”, que Lauro Fontana usava para se referir ao seu sonhado hotel, ganhou as ruas e terminou consagrado pelo uso popular, a ponto de merecer registro no dicionário Aurélio como definição de “edifício com muitos andares”.

- Na época em que O Espigão foi ao ar, o grande nome dos empreendimentos imobiliários no Rio de Janeiro era o do construtor Sérgio Dourado. Havia obras realizadas pela sua construtora espalhadas por toda cidade. Uma parte do público confundiu ficção e realidade e identificou o empresário com o vilão da novela. Por conta disso, durante o lançamento de um prédio na zona sul do Rio, Sérgio Dourado chegou a ser agredido por um grupo em protesto.

- Pelo seu desempenho como Tina Camará, Suzana Vieira ganhou o prêmio de atriz revelação da Associação Paulista dos Críticos de Arte.


Trilha Sonora:

- O tema de abertura da novela, composto e gravado por Zé Rodrix, tinha versos como: "Que é que eu posso fazer/ Se inventaram o mundo para me dar prazer?/ Minhas máquinas estão fazendo tudo (que eu fazia)/ Eu não preciso mais me mexer para viver".

Merchandising social:

- O Espigão discutia várias questões relacionadas à qualidade de vida e ao meio ambiente, destacando as conseqüências da expansão imobiliária, do progresso tecnológico e da desumanização da cidade.


ELENCO

Milton Moraes .... Lauro Fontana


Betty Faria .... Lazinha Chave-de-Cadeia

Ary Fontoura .... Prof. Baltazar Camará

Carlos Eduardo Dolabella .... Marcito Camará

Suzana Vieira .... Tina Camará

Vanda Lacerda .... Urânia Camará

Rosamaria Murtinho .... Elka Escobar

Suely Franco .... Cordélia Fontana

Cláudio Marzo .... Léo Simões

Débora Duarte .... Dora

Mauro Mendonça .... Donatello

Milton Gonçalves .... Nonô Alegria-das-Gringas

Mário Lago .... Gabriel Passos

Lutero Luiz .... Gigante

Ruy Rezende .... Dico

Myriam Pérsia .... Olga

Jardel Mello .... Machado

Cecil Thiré .... Silveirinha

Maria Lúcia Dahl .... Renata

Bibi Vogel .... Samanta

Gilberto Garcia .... Coroinha

Dorinha Duval .... Zilda

Júlio César .... Henrique

Tomil Gonçalves .... Carlinhos Camará

Marta Anderson .... Elizabeth

Vera Lúcia .... Sula


TRILHA SONORA NACIONAL


1."Malandragem Dela" - Tom e Dito (tema de Lazinha)


2."Botaram Tanta Fumaça" - Tom Zé

3."Subindo o Espigão" - Betinho

4."Alfazema" - Walker

5."Você Vai Ter Que Me Aturar" - Sônia Santos

6."O Espigão" - Zé Rodrix (tema de abertura)

7."Pela Cidade" - Bertrame e Conjunto Azimute

8."Retrato 3X4" - Alceu Valença

9."Na Sombra da Amendoeira" - Os Lobos (tema de Carlinhos)

10."Cildada" - Pery Ribeiro

11."Nonô, Rei das Gringas" - Djalma Dias (tema de Nonô)

12."Berceuse" - Tuca

13."Último Andar" - Benito di Paula


TRILHA SONORA INTERNACIONAL

1."The Ballad of Danny Bayley" - Elton John


2."Save The Sunlight" - Dennis Yost & The Classics IV

3."Dancing Machine" - The Jackson Five

4."We Can Make It Happen Again" - The Stylistics (tema de Marcito)

5."When The Fuel Runs Out" - Executive Suite

6."Lady It's Time To Go" - Stu Nunnery

7."You Are All The Sunshine" - Evan Pace

8."Tell Me a Lie" - Sami Jo

9."Rock Your Baby" - George McCrae

10."Pledging My Love" - Diana Ross & Marvin Gaye

11."Another Day" - Paul Jones

12."There's Nothing Is Rather Do" - Kevin Johnson

13."The Loneliest House On The Block" - Little Anthony & The Imperials (tema de Tina)

14."What Can I Do?" - Summer Breeze




Fonte: Memória Globo



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